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Manual de Sobrevivência e Morte (Somente a Verdade Livro 1)

Lembrar não existe!

É uma ação completamente ilusória achar que se pensa lembrar algo. Para que lembrar fosse possível, seria necessário existir um repositório de fatos, ou de lembranças sobre fatos, que implicaria necessariamente na existência do passado. Mas assim como o futuro não existe - mesmo que se diga ainda -, o passado não existe em um lugar chamado passado – esse cadáver que se avoluma infinitamente pelo presente que morre. O passado não existe pois existir (ou não) também é uma qualidade do presente. A ideia de lembrar só serve mesmo para ser usada quando se quer - ou se precisa - se opor à outra idéia mais perniciosa. No esforço de querer entender, compreender ou suportar a vida em si mesma, deve-se se opor lembrar à ideia perniciosa de aprender... pois não há nada a ser aprendido... nada a ser adquirido... Para se resistir à ideia de aprender pelo exterior pode-se – deve-se – ter a ideia de lembrar, lembrar-se a partir de dentro, ter ciência, consciência de que se deve suportar a ideia de que se está vivo, sobreviver, pois um dia o presente se manifestará através da sua morte.

Morte para muitos é esquecer, esquecimento, esquecido... Mas para Kaslu, morte sempre foi morte, e como lembrar para ele não existia, esquecer era também um ato inexistente... Entrei em seu ambiente assim, sabendo que durante a duração improvável de qualquer vida, em seus largos e curtos setenta médios anos, muitas consciências habitavam um mesmo corpo, e que a última procuraria dar uma unidade ao conjunto de consciências pertencentes àquele corpo que nunca existiu também. Procurei respeitá-lo, em sua morte, anunciada e acontecida, tentando imaginar por decisão, que não era Kaslu, mas sim uma nova consciência brotada daquele que fora meu antecessor, pois assim ele queria e intimamente sempre me senti seu amigo. Entrando em seu ambiente, que ele hodiernamente chamava de blog de guerra, sabendo que nunca conseguiria restabelecer a unidade da sua existência, procurei entender porque ele acumulará cada livro, cada filme, cada imagem num ambiente pouco, de uma consciência que havia sido tão poderosa. Tentei absorver os restos, as ruínas maravilhosas daquela consciência perdida que alguém diria, algum dia, que fui eu mesmo, simplesmente por causa da falsa unidade que um corpo oferece. Mas Kaslu saberia simplesmente chamá-lo de imbecil, ou pato, ou mula, ou ovelha... pois, por enquanto, eu não mais existia... e o eu de Kaslu era um avião sinistrado perdido nas matas, no deserto, nos abismos de alguma geografia maravilhosa de nossos icebergs, coletivamente grudados ainda por geleiras-mães misteriosas... mas em derretimento.

Quando um corpo chega à determinada idade biológica - Kaslu me fez entender -, o seu eu pessoal se transforma em um avião sinistrado à espera de resgate que não o levará mais a nenhum lugar. E ficar à deriva pode acontecer a qualquer momento, mas cinquenta é uma idade fatal! Passei a mão sobre as estantes improvisadas, sobre as caixas de livros, CDs, DVDs, semiabertas, sobre coleções de pendrives, e a poeira era a mesma: uniforme, inesperada, alérgica, capeando todo o conjunto. Na mesa única, o laptop, muitas folhas rabiscadas com dibujos e esquemas, com apenas um livro xerocado em pasta de elástico, sim, empoeirado, sem nenhum sentido aparente.

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