A Vila Mimosa é parte integrante do imaginário carioca. Trata-se de um daqueles locais mitológicos, cujo nome é citado pelas pessoas não apenas como um mero espaço geográfico encravado na cidade, mas como se fosse uma pessoa de fato, um ser vivo.
A antiga Zona do Mangue foi transferida para a Rua Sotero Reis, mas as polacas do começo do século XX jamais abandonaram o local de origem; seus fantasmas continuam debruçados nos parapeitos invisíveis das casas próximas a Presidente Vargas, sorrindo para os transeuntes que já não mais as veem.
Tudo que já existiu nesse mundo deixa rastros. As emoções vividas por nós não desaparecem: ficam impressas nas paredes, no chão e no ar, como fotografias. Basta ter olhos atentos para poder enxergar o passado que ainda nos cerca.
Coslei é um desses observadores atentos. Seus contos expõem retratos urbanos que muitas vezes passam despercebidos aos nossos olhos. O sexo, a morte e o amor (e claro, uma dose de humor) estão impregnados em cada página desse livro por um motivo muito simples: esses são temas sobre os quais vale a pena escrever. Seus personagens são pessoas simples, ordinárias, que levam vidas mundanas e aparentemente sem importância. Através de uma prosa rica e inteligente, Alexandre Coslei nos relata de forma comovente a história peculiar de cada um desses anti-heróis, marginais e prostitutas, sem jamais cair na armadilha da condescendência. Por mais lúgubre que seja a paisagem retratada, o autor sempre nos mostra a beleza oculta que existe por trás da aparência óbvia, mesmo que essa beleza muitas vezes seja triste. Usando mais uma vez a metáfora da fotografia, às vezes é necessário que se entre num quarto escuro para que a poesia se revele.
Após ler esse apanhado de histórias, o leitor sentirá vontade de fazer um passeio à Praça da Bandeira para ver com os próprios olhos os cenários descritos nesse livro, agora com uma visão mais atenta à beleza invisível revelada a nós pelo autor.
Veremos que Lara, a prostituta negra do conto que dá título ao livro, ainda está parada na porta do bar com as mãos repousadas nos quadris; assim como o fantasma de Mauro, o mendigo, ainda dorme embaixo de uma marquise. Todos continuam por lá, o passado mais vivo que nunca, habitando os áridos paralelepípedos da Vila Mimosa.