O Caçador relata a jornada de dois homens pelo interior de uma terra que poderia ser muito bem o Vale do Jequitinhonha. Narrado na primeira pessoa, o livro descreve com detalhes e miudeza tudo o que se passa ao longo da viagem, tanto em relação ao meio no qual estão inseridos os dois personagens principais, através da descrição minuciosa da paisagem, quanto em relação ao que acontece dentro deles, principalmente ao narrador da estória, que é um jovem na casa dos seus 26, 27 anos possuidor de uma personalidade melancólica e fatalista, que vê a vida como um longo caminho triste e tortuoso na maioria das vezes. Ele até tenta encontrar alegria e felicidade ao longo da viagem, mas não consegue; e, se consegue, é temporária. Ouso a dizer que ele sente até um prazer doentio em ser assim. No fundo, não quer mudar e acha que isto seria impossível e extremamente doloroso. Cheio de reminiscências (característica de quem é melancólico por natureza), o narrador nos transporta a um mundo extremamente detalhista (não poderia ser diferente!) e, paradoxalmente, pulsante, vívido. Ele vai naturalmente encontrar na viagem e no meio que os cercam, uma oportunidade única para viver experiências e emoções até então lhe negado por ele sempre ter sido exatamente avesso à elas. Ele vai encará-las como uma chance rara de ser mais humano e aceitar quem ele realmente é, quer goste ou não do seu jeito de ser. De fato, o caçador à que o título do livro se refere é ele, o narrador (um caçador de si mesmo e de quem ele realmente é), não o seu companheiro de viagem, o velho caçador de animais, que lhe servirá, ao longo da jornada, como um contrapeso para a sua personalidade aflita e ansiosa. O velho é o ponderador das suas aflições.