Caro leitor, quando escrevi este livro pensei em oferecer-lhe uma narrativa verdadeira, baseada em textos de época, ainda que não seja um relato histórico, posto que nem sempre respeitei, como deveria, historiador que sou, a ordem cronológica dos fatos. Preferi me deixar levar pela lógica mesma da narração, e acho que você me dará razão. Minha intenção foi, sobretudo, a de dividir com você o sabor da mesa brasileira, reconstituída através dos relatos vivazes feitos por viajantes que amaram, uns, e detestaram, outros, o Brasil, sua gente, seus hábitos e costumes e, especialmente, a sua comida. Da mesma forma que me surpreendi, gostaria que você, leitor, partilhasse de meu embevecimento diante de gestos e de maneiras à mesa, bem como de gostos e de preferências ainda intactos, de modos de estar e de viver descontraídos que tanto incomodavam o estrangeiro, sem contar certos preconceitos alimentares, tudo tão atual e, no entanto, tão antigo. De fato, é porque acredito que é nas pequenas coisas, especialmente aquelas que conformam o nosso cotidiano, em que está apoiada a identidade de um grupo social e de todo um povo, que me lancei nesta pesquisa. O comer e o beber, em casa e na rua, sem dúvida, ocupam um lugar muito especial no dia a dia do brasileiro, especialmente em suas ocasiões mais alegres e festivas. Daí estarem associados às recordações mais felizes, as mais agregativas. Venho, pois, convida-lo, caro leitor, a acompanhar-me nestas páginas e comigo descobrir as origens dos hábitos alimentares e dos prazeres à mesa dos brasileiros, e dos cariocas em particular. Asseguro-lhes que esta leitura será a mais digestiva possível. Bom proveito!