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A Vida e o Verso

O CANTAR DO CORAÇÃO


Emerson Monteiro


A literatura dos interiores distantes traz em si um charme especial, de quem sofre sozinho em meio às coisas que acontecem longe da escrita, no dia-a-dia, código interno da vida resguardada sob sete chaves, nas almas caladas, indagadoras, febris, viajante nas encostas dos relevos imaginários, sobrevoos extremos de largas praias, nos seios do coração, na paixão do viver. E nisso o poeta vira doutor de ciências inatingíveis pelos dedos da fria realidade. Criar no nada, sentir o pulsar das veias e decodificar em palavras guardadas em gavetas atiradas às futuras gerações. O poeta do território dos homens, o missionário das grandes navegações do furor de cada indivíduo, espécie de cobaia da existência no seu estado mais puro.
Raimundo Elesbão de Oliveira nos conta de tudo isso em seus versos dotados de afirmações e interrogações de momentos agitados do ser. Suas aventuras espirituais as deixou gravadas em forma de notícia-tradução aos pósteros que hoje revelam os passos que deu sua memória de sensibilidade a outras gerações em formato de livro.
Artistas sonham. Amam. Artistas nutrem idéias, utopias, realidades tangíveis. Não lhes cabe produzir bombas, metralhadoras, aviões de combate, tanques, fome, divisões.
Seus filhos e netos sentem a responsabilidade para com alguém inspirado, consciente das contradições de sua época, a registrar contrito os refolhos grandiosos da paisagem íntima em palavras, gestos de interpretação, testemunhos inalienáveis do que presenciou, avaliações de cada hora, no dedilhar das eras contínuas. Transferem com isso o compromisso de uma personalidade eminente para o seu meio, a cidade de Araripe, no
Cariri cearense, com atitudes clássicas e visão avançada, chance única dos que passaram naquele contexto e não mais existem a não ser nas descrições esmeradas de Raimundo Elesbão, a se deter e escriturar, de seu posto de observação, a corrosão da imperenidade dos séculos impacientes.
A gestação e o parto das palavras a se identificar com qualquer gestação e qualquer parto, tanto na expectativa, quanto nas dores, créditos da realização de um ser noutro ser. Marcas fortes do ferro das expressões, que abandonar, por isso, desertaria de si o Eu que clama, explode nas paredes do indivíduo, chama que devora as entranhas do vaso deste chão, barro inútil a se transformar em outros seres e circunstâncias através dos novos panejamentos. Doce ato de fenecer nas coisas que perenizam o mistério da Eternidade. Deixar-se continuar, em meio ao conflito de dramas e intenções, uma superior dimensão que a tudo sobrevive. Falar do sonho é o que restaria para quem sonha.
Falassem as pedras e restariam semelhante angústia de autores e suas palavras prenhes de poesia e extrema verdade.
Eis por tudo isso o que este livro quer guardar, o melhor perfume notado de um senhor a um só tempo mestre, tabelião, conselheiro, filho, esposo, pai, avó, amigo, autor, em comunidade interiorana do sertão do Nordeste, escondida nos socavões da Serra do Araripe, cheia de tipos inesquecíveis, dignidade provinciana e inspiração à flor da pele, nos tantos mistérios de realidade multiforme. Estes versos lhes falarão disso com carinho e continuidade, esperança de que outros reavaliem o penhor do sonho desses tempos ricos em paz e solidariedade.

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